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Cada um com seu Pelé


Foto de Thiago Arantes

Thiago Arantes

Jornalista formado pela UnB, chegou à ESPN em 2010. Pelo ESPN.com.br, cobriu a Copa na África, o Pan de 2011, a Olimpíada de Londres, eventos do UFC e Fórmula 1



Excelente texto vale à pena ler

Escrevo esse texto deitado, de repouso, ainda sob efeito de anestesia. Acabo de tirar dois dentes do siso, o tal dente do juízo, mas meu juízo nunca foi grandes coisas, talvez continue não sendo. Talvez piore. E, se piorar, começa por aqui.

Escrevo esse texto anestesiado na boca e na alma. Porque ontem foi um dia histórico para o futebol. Não para o futebol dos grandes centros, dos amarillas, dos milhões de euros e dos libertadores. 

Foi um dia histórico para o meu futebol, o futebol que eu aprendi a ver sentado no concreto do Serra Dourada, sempre em frente às cabines de rádio, para ouvir o grito de gol ao mesmo tempo que via a rede balançar.

Ontem, Araújo voltou ao Goiás. E talvez você, torcedor de qualquer outro time da galáxia, jamais entenda o que isso significa. Talvez devesse tentar.

Araújo voltou ao Goiás e a torcida, que durante anos gritou o nome do atacante durante as derrotas mais doídas, pôde cantar com ele ali, em campo, ouvindo, sentindo o carinho de uma gente que não costuma acariciar qualquer um.

Araújo é o maior artilheiro da história do Goiás. É um dos maiores jogadores da história do clube. É o passado, o presente e o futuro. 

E antes que torcedores de outros times, mais abastados por suas cotas de TV ou parceiros milionários venham falar alguma coisa, olhem para o próprio umbigo: onde está o maior artilheiro da história do seu time? Você não gostaria que ele estivese em campo? Não seria legal ver a história se construir na capa do jornal do dia seguinte?

Foi pelo rádio que ouvi o Goiás vencer o Santo André por 1 a 0, para avançar à terceira fase da Copa do Brasil. A jogada começou com um chapéu de calcanhar de Araújo, que avançou pela linha de fundo, como se tivesse 19 anos, e cruzou para Junior Viçosa concluir de cabeça.

Eu estava no Serra Dourada no dia 9 de julho de 1997, quando Araújo tinha 19 anos e estreou com a camisa esmeraldina. 

O Goiás vencia o Grêmio por 4 a 0, na despedida de Paulo Nunes do então campeão brasileiro. O Grêmio, meses antes, havia vencido o Goiás na semifinal do Campeonato Brasileiro. 

Paulo Nunes marcou um dos gols no 3 a 1 do Serra Dourada em 1996. Comemorou fazendo uma dancinha.

Pois em 1997, em sua despedida rumo ao Benfica, Paulo Nunes dançou de novo. Ao ritmo de um 6 a 0 que teve o quinto gol marcado por Araújo, o garoto tímido que viera do Porto de Caruaru, junto de Josué e Marquinhos. Contratações cirúrgicas na época em que o termo não estava na moda; hoje, pelo que vejo por aí, está em desuso.

Foi quase um acidente cósmico eu estar no estádio naquela estreia de Araújo. Porque, já naquela época e mais ainda nos anos seguintes, acabei frequentando menos o Serra Dourada, e mudar para Brasília na época da faculdade não ajudou. Naquele tempo, não tinha essa mordomia de pay per view, e era no rádio mesmo que eu acabava por acompanhar boa parte dos jogos.

Foi pelo rádio que vi Araújo construir sua história no Goiás, enquanto levava o time ao patamar de "aquele médio que sempre incomoda", como gostam de dizer os colegas paulistas, mineiros, gaúchos, cariocas. Para mim, Araújo ajudou a fazer o Goiás ser grande.

Foi pelo rádio que vi - e não apenas ouvi - Araújo voltar ao time de onde jamais deveria ter saído. Um chapéu de calcanhar, um cruzamento perfeito, e o grito da torcida com ele em campo, em tom de reencontro, não mais de saudade. 

Eu poderia ter nascido corintiano, para venerar Sócrates, poderia ser são-paulino e morrer de amores por Rogério Ceni e Raí, ou palmeirense para me derreter em prantos com os gols de Evair e as defesas de Marcos; fosse rubro-negro, teria Zico e o time de 1981 no coração, ou vibraria por Dinamite, Edmundo e Romário se me vestisse com a cruz de malta. Se seguisse os conselhos de meu pai, seria santista e teria Pelé, viveria do passado de glórias e do presente de Neymar. 

Mas não aconteceu. Embora eu tenha aprendido a respeitar todos os outros, até porque respeitar a história e as boas histórias é o pré-requisto para qualquer aspirante a jornalista.

Cada time tem seus craques e seus ídolos. Na quarta-feira, 15 de maio de 2013, o meu time se reencontrou com o seu. 

Que fique bem claro: Araújo não precisa ser campeão, nem dar chapéu de calcanhar em todos os jogos.

Basta que ele esteja em em campo para ouvir os que gritam por ele. Basta que a torcida possa gritar por seu Pelé.


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